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PRODUTIVIDADE EM GRÃOS

Odilon Guimarães

Soja

Mais uma vez, a soja dá o impulso para o crescimento da agricultura brasileira. Com a previsão de que ela ocupe 20 milhões de hectares, o levantamento de intenções de plantio da nova safra preparado pela Conab – Com-panhia Nacional de Abastecimento, em outubro, indica que a soja sozinha responderá por quase metade da área de grãos do país. O plantio previsto é cerca de 10% maior que o da super safra colhida este ano, mas os produtores acreditam que ainda há espaço para crescer. O otimismo pode ser visto nos campos preparados pelos produtores de sementes, que trabalham hoje já pensando na safra do verão de 2004, e em nova expansão do plantio.

No Mato Grosso, estado responsável pela maior colheita de soja do país, a produção de sementes aumentou de 10 a 12% na safra 2002/2003 e deve repetir o ritmo no plantio iniciado agora e atingir 270 mil toneladas, afirma o presidente da Aprosmat, Associação dos Produtores de Sementes do Mato Grosso, Edeon Vaz Ferreira. A longa indefinição sobre o plantio das variedades transgênicas tem efeitos danosos para os produtores de sementes, pois levou muitos sojicultores a deixarem de comprar sementes certificadas e estimulou o contrabando e a multiplicação na própria fazenda, principalmente no Rio Grande do Sul. A indústria de sementes, porém, continua investindo em aumento de área e evolução tecnológica, enquanto espera a decisão sobre os cultivares modificados.


No Paraná, pesquisadores oferecem

treinamento contínuo para produtores de sementes


O trabalho articulado dos sementeiros com as instituições de pesquisa tem servido de base para um dos pilares da competitividade da soja brasileira, o crescimento contínuo da produtividade (veja no gráfico a comparação da evolução com EUA e Argentina). Neste ano, a Embrapa lançou 26 novas cultivares de soja para todo o Brasil. Organizados em sete fundações regionais de apoio à pesquisa, em áreas que vão do Maranhão ao Rio Grande do Sul, os produtores de sementes participaram do trabalho com aporte de recursos e formação de campos experimentais. A parceria dá direito à exploração comercial das novas variedades e os sementeiros recebem também assistência tecnológica para fazer frente às exigências específicas dos campos de produção de sementes. A qualidade na etapa de produção das sementes é essencial para que a evolução do potencial genético alcançada nas novas cultivares possa se refletir plenamente nas lavouras. 

Para garantir essa qualidade, a Fundação Meridional, que reúne as empresas sementeiras dos estados do Paraná, São Paulo e Santa Catarina, instituiu este ano um programa que estabelece uma ligação direta e contínua com os pesquisadores da Embrapa Soja e do Iapar – Instituto Agronômico do Paraná. O sistema Treino & Visita, iniciado em julho, é como um treinamento contínuo, com troca constante de informações entre pesquisadores, os assistentes técnicos das empresas e os agricultores. Cada empresa tem um técnico para fazer a ligação com o corpo multidisciplinar de pesquisadores, apresentando os problemas sentidos na produção e trazendo as sugestões de como resolvê-los. O sistema, já aplicado na área de produção de grãos no Paraná, chega agora aos campos de sementes. “O objetivo é melhorar o processo de produção e também o de transferência de tecnologia”, afirma Ralf Udo Dengler, secretário executivo da Fundação Meridional. Houve uma grande evolução técnica nos campos de produção de sementes do país, “mas ainda há flutuações nos padrões de qualidade”, ele diz. 

 

Dia de Campo

Dia de Campo

 "Apesar das desvantagens do clima tropical, a produção de sementes de soja no Brasil já apresenta nível tecnológico superior à dos EUA"

Francisco Krzyzanowski, da Embrapa Soja

 

Produção de Sementes

Áreas de produção de sementes da Fundação Meridional

Pacote tecnológico

Especialista em produção de sementes da Embrapa Soja, Francisco Carlos Krzyzanowski afirma que a semente “é um verdadeiro pacote, através do qual são transferidas as tecnologias e informações genéticas aos sojicultores”. Para o pesquisador, o sistema de produção de sementes de soja no Brasil evoluiu muito e superou as desvantagens que apresentava em relação aos Estados Unidos, principalmente devido ao clima. “É muito fácil produzir sementes de soja no clima temperado. Lá a colheita pode ser feita no grau de umidade adequado, em torno de 13%, e nessas condições o processo de beneficiamento pode se estender pelos oito meses que separam a colheita do próximo plantio”, ele explica. Em contrapartida, em um país tropical, a colheita é feita com graus elevados de umidade e o processamento precisa ser realizado ao mesmo tempo em que se colhe. O armazenamento requer condições especiais, em condições de temperatura abaixo de 25°C e de umidade relativa abaixo de 70%. Os investimentos são mais altos, mas hoje, segundo o pesquisador, o nível tecnológico de preparo da semente de soja no Brasil é superior ao norte-americano.

Nos últimos anos, segundo Krzyzanowski, os produtores do país conseguiram grandes avanços no trabalho de acompanhamento do nível de qualidade fisiológica e sanitária da matéria-prima para semente ao nível de lavoura. Foi aperfeiçoado o controle de insetos e doenças, e também o de ervas daninhas. Além disso, aprimorou-se o controle de gerações das classes de sementes em produção. “Atualmente, as sementes oriundas do sistema de certificação têm alta taxa de pureza genética”, ele afirma.

Por outro lado, o pesquisador aponta a persistência de problemas que prejudicam a qualidade do trabalho dos sementeiros. Em primeiro lugar, a baixa qualidade da mão de obra disponível na zona rural. “É preciso um amplo programa de qualificação de profissionais”, defende. Em algumas regiões, a frota de colheitadeiras em operação ainda é antiga, o que dificulta obter ganhos significativos na qualidade da colheita. Segundo o pesquisador, também há máquinas muito antigas em linhas de beneficiamento, impedindo um melhor preparo da semente.

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