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CANA COM MAIS ENERGIA

Proteção para o Solo

Não é apenas em seu uso energético que a palha vem sendo estudada. Os efeitos agronômicos da permanência das folhas da cana no solo têm sido um dos objetos de pesquisas no centro da Copersucar. Um estudo feito no ano 2000 levantou os principais benefícios e problemas resultantes da manutenção da palha como cobertura verde. “Eles dependem muito da região onde está localizado o canavial”, afirma Régis Leal. Entre os efeitos benéficos estariam a “proteção da superfície do terreno contra a ação erosiva de chuvas e ventos, a redução da variação térmica do solo, já que a palha impede a incidência direta dos raios solares, o incentivo ao aumento da atividade biológica na terra, a maior disponibilidade de água para a cultura devido à redução da evaporação e o controle de plantas daninhas, o que possibilitaria reduzir ou eliminar o uso de herbicidas, entre outros benefícios”, enumera o pesquisador.


No cultivo pelo método orgânico a palha remanescente é valorizada

como cobertura verde do solo, que ajuda a manter a umidade

e contribui para aumentar a produtividade


Plantação de Cana

Mas a relação dos problemas, ou desafios, é tão longa quanto a dos benefícios, ele afirma. “Há os riscos de incêndio na palha durante e após a colheita, dificuldades para executar as operações de cultivo mecânico, a adubação das soqueiras e o controle seletivo de plantas daninhas através da camada de palha. Há também retardamento ou falhas na brotação e redução da produtividade sob condições climáticas com baixas temperaturas ou teores elevados de umidade no solo”, explica Régis Leal. E mais ainda: o aumento da presença de pragas, especialmente da cigarrinha.

De acordo com os estudos do CTC, a determinação da quantidade de palha que proporciona o melhor controle sobre as plantas daninhas é importante, “até para poder liberar melhor o excedente para ser utilizado na co-geração de energia elétrica”. Verificou-se nos ensaios feitos, por exemplo, que quantidades de palha entre 7,5 e 9 toneladas por hectare de matéria seca, quando uniformemente distribuídas sobre o solo, controlaram eficazmente as espécies anuais de plantas daninhas. Por outro lado, a incidência da praga da cigarrinha é um impedimento para o uso da cobertura com palha em áreas com clima mais ameno.

“Na região de Araras, em que a temperatura no inverno é mais amena, não só a palha favorece a disseminação da cigarrinha, como a própria cana necessita de maior incidência de sol para brotar, e a cobertura aí é prejudicial”, afirma João Martins, gerente da área agrícola da Usina São João. Por isso, quando não há o recolhimento, a opção foi enleirar a palha a cada duas linhas do canavial.

Alternativa Orgânica

Se para a maioria dos agrônomos há tanto bons motivos como desvantagens em usar a palha como cobertura verde, na Usina São Francisco, do Grupo Balbo, o cenário é totalmente diferente. Localizada em Sertãozinho-SP, a usina, que produz o açúcar orgânico Native – com 90% da produção destinada à exportação para 27 países – vem fazendo um trabalho de conversão da agricultura tradicional para a orgânica há 16 anos. “Hoje temos 13 mil hectares de canaviais totalmente orgânicos, colhidos com máquinas e sem queima e com toda a palha remanescente utilizada como cobertura verde do solo”, explica o diretor Leontino Balbo Júnior.

Para chegar a isso, foram anos de aprimoramento e busca de uma nova maneira de produzir e gerir a usina. Segundo Balbo, houve uma mudança de filosofia produtiva. “Tudo que se fazia em cana até então era baseado em técnicas que vieram da Europa e nos países temperados, enquanto moramos em um país tropical, com solos de características totalmente diferentes”.

Na São Francisco, após a colheita da cana crua, uma camada uniforme de palha (cerca de 20 toneladas por hectare, com umidade média de 70%) é espalhada sobre o solo, para que este fique fresco e úmido. “O que podemos dizer é que quando conseguimos o equilíbrio do ecossistema, a cigarrinha, considerada uma praga para a maioria dos produtores, deixou de ser problema”, salienta.

Usina São Francisco

Instalação piloto de hidrólise vai usar também palha como matéria prima

“Ao invés de lutar contra a natureza, aprendemos a lidar com ela, através de controle biológico, monitoramento constante das populações de insetos e de ervas daninhas”. Os resultados, de acordo com Balbo, são ótimos, incluindo a produtividade, que chega a 98 toneladas por hectare de cana. Já no aspecto de geração de energia, ele não vê vantagens em utilizar a palha. “Para nós, no chão ela é muito mais produtiva”, afirma.


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