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Cana com mais energia

Patrícia Carvalho

Colheita de Cana Mecanizada

O Brasil está colhendo este ano a maior safra de cana-de-açúcar da história: cerca de 317 milhões de toneladas, segundo estimativas do setor sucro-alcooleiro. Desse total, aproximadamente 20% já estão sendo colhidos de forma mecanizada, na maior parte dispensando as queimadas. No estado de São Paulo, maior produtor do País, esta percentagem sobe para 25%. E a presença das colheitadeiras nos canaviais tende a se tornar mais forte nos próximos anos, até porque, pelo menos em São Paulo, a legislação ambiental definiu um cronograma para que, a médio prazo, a queima antes da colheita seja uma prática completamente abolida.

Um dos resultados diretos desta nova realidade é o grande volume de palha, as folhas de cana que eram queimadas e agora ficam sobre o campo após a colheita. Ou seja, já estão sendo “produzidas”, graças à não queima, cerca de 8 milhões de toneladas de palha verde atualmente, considerando-se que a cada tonelada de cana colhida sobram 140 quilos de palha. O que fazer com o novo resíduo vem sendo objeto de muitos estudos e experiências em um setor que, nos últimos anos, destacou-se pela capacidade de transformar restos em subprodutos valorizados. E em vários aspectos se verifica que o maior volume de palha pode ser uma solução a mais, podendo tanto ser aproveitado para aumentar a produção de energia, como contribuir para o rendimento agrícola e a proteção do solo.

Com um teor calorífico ainda maior do que o do bagaço, a palha poderia ser um acréscimo bem-vindo como combustível nas caldeiras das usinas. Atualmente, usando só o bagaço, a maior parte das usinas consegue produzir, com o vapor das caldeiras, energia suficiente para acionar todo seu processo industrial, e ainda eletricidade excedente para vender. A usina São João, de Araras, interior de São Paulo, é uma das que vêm retirando uma parte da palha dos campos para reforçar a produção de energia. Na safra passada, o uso da palha ajudou a compensar a oferta insuficiente de bagaço para queimar. De acordo com José Ieda Neto, gerente da área industrial da empresa, a palha, com 30% de umidade, possui um poder calorífico de cerca de 2.200 kcal/t, enquanto o bagaço, com 50% de umidade, oferece cerca de 1.800 kcal/t.

A usina está trabalhando junto ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas - IPT de São Paulo em um estudo para a determinação do poder calorífico do bagaço e da palha. Com uma produção total de cerca de 3,3 milhões de toneladas de cana, a São João já tem a colheita mecanizada e sem queima de 7.770 hectares de área própria e mais 2.580 hectares de área de parceiros.

Desafio é Recolher

O grande desafio para a utilização da palha para produzir energia, no entanto, está no custo de recolhê-la nas lavouras, transportá-la para a indústria e manuseá-la, e nas técnicas e tipos de máquinas disponíveis para estes fins. “Não pudemos continuar com as experiências na usina este ano por que não conseguimos alugar máquinas para este trabalho”, afirma Ieda Neto. Ele diz que os custos do transporte e manuseio da palha tirada diretamente do chão – os outros métodos seriam o enfardamento e levar para a indústria a palha junto com a cana colhida – ficaram em 40 reais por tonelada posta na usina. “Ainda assim, dado o teor calorífico e a capacidade de geração de energia da palha, este custo se paga”, avalia.


Com teor calorífico maior que o do bagaço,

as folhas podem reforçar a produção de vapor nas caldeiras


O coordenador de Recursos de Tecnologia do CTC - Centro Tecnológico da Copersucar, Manoel Régis Leal, estuda o assunto desde o final da década de 90 e acredita que é preciso baixar os custos para que a utilização se torne compensadora. “Nós conseguimos trazer a palha para a usina junto com a cana, com baixa umidade, por algo entre R$ 37,05 e R$ 39,90 por tonelada. Foi o método mais barato que encontramos até agora, mas é preciso baixar ainda mais”, diz ele.

O agrônomo William Cabrera vem estudando o assunto há quatro anos e sua empresa Servfar do Brasil atualmente assessora várias usinas, entre elas o Grupo Dedini, a Equipav, Usina da Barra e a própria São João, todas interessadas no aproveitamento energético da palha. “Comecei a estudar o assunto quando houve a ameaça do apagão e a necessidade de aumentar a geração de energia no Brasil tornou-se uma questão urgente”, ele lembra. Seus testes provaram que o rendimento em termos de geração de energia de cada tonelada de palha era igual ao de 2 toneladas de bagaço. “O potencial de geração é enorme. Resta resolver alguns problemas técnicos, como a separação da terra que vem do campo com a palha e que causa problemas na indústria. Quanto aos custos, a energia gerada os paga plenamente”, acredita. Na usina Equipav, no município paulista de Lins, a forrageira John Deere JD 6750 é uma das máquinas usadas nos testes.


Aproveitamento energético da palha depende

de encontrar técnicas eficientes e de custo mais baixo

para o trabalho de coleta no campo e o transporte até a usina


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