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O DOCE CHEIRO DA TERRA

Valtemir Soares Junior


As flores brancas e aromáticas da camomila são

a principal riqueza agrícola de Mandirituba, no Paraná


Como quase tudo na vida, a agricultura brasileira também é feita de contrastes. Enquanto a soja é a grande vedete do campo, chamando a atenção até mesmo de quem não é do meio, discretamente outras lavouras também fazem a festa do produtor e impulsionam pequenas localidades pelo país afora. Um desses casos é cultura da camomila na pequena Mandirituba, um município predominante rural – dos 18 mil habitantes somente 6 mil vivem na cidade – a 45 quilômetros de Curitiba, no Paraná. Lá a plantinha de flor branca, corola amarela e de um agradável cheiro doce é o destaque de uma agricultura basicamente familiar e que, na comercialização de 2002, movimentou cerca de 3 milhões de reais na economia local.

Produção de Camomila

Na primavera é hora da colheita nos campos cobertos de flores da camomila 

A relação de Mandirituba com a camomila, que significa maçã da terra em grego antigo (o aroma lembra o do fruto e, como ela é quase rasteira, dá impressão de que o cheiro vem do chão) é secular, remonta ao final do século 19, quando os primeiros imigrantes ucranianos e poloneses escolheram a região para se estabelecer. Além da esperança de dias melhores em solo tupiniquim, essa gente trazia na bagagem os hábitos das terras além- mar. E um deles era o de fazer horta com essa florzinha prima do girassol, a fim de ter em casa um remédio para combater a diarréia e cólicas dos bebês, além de dispor de um reconfortante chá para os dias mais frios. O relevo acidentado, solo com pouca matéria orgânica e o microclima local acabaram se mostrando ideais para que a espécie literalmente florescesse.

Somente nos anos 60 do século 20, porém, é que a plantinha “pirateada” passaria a ser cultivada comercialmente em pequenos canteiros. Dessa época ainda se lembra o produtor Dionísio Ivankio, que conta que sua avó foi uma das primeiras a fazer o cultivo caseiro da camomila – uma tradição seguida depois pela mãe. Na falta do registro histórico do fato, seguramente essa família de origem ucraniana foi a pioneira a apostar na produção em escala. “Os primeiros plantios eram feitos transplantando mudinha por mudinha e a produção não chegava a dois sacos de 50 quilos”, relembra, contando que a produção toda era entregue numa farmácia de manipulação em Curitiba. “Depois passamos para o cultivo da semente a lanço e hoje já se usa até máquina”.

Em seu sítio de 24 hectares, Dionísio reserva todos os anos 5 hectares à camomila no inverno. Pode parecer pouco, mas nessa área ele deverá apurar na atual safra 2,5 toneladas de matéria seca. É tanta camomila que dona Paranka, a mãe do produtor, no alto dos seus 90 anos, fica inquieta com o que vê: “A minha criançada tá plantando tanto, o que eles vão fazer com tudo isso?”. Mas nem tudo são flores para os produtores, como bem lembra Dionísio, que, ao longo de quase meio século de cultivo, viu a demanda aumentar mas os preços não. “Antigamente a produção dava dinheiro pro ano todo. Só para se ter uma idéia, em 95, o quilo de matéria seca estava na casa dos 3 dólares, hoje fica um pouco acima de um. Mas fazer o quê? Temos que plantar”.

Dionísio Ivankio

Dionísio Ivankio colheu nesta safra 2,5 toneladas de flores

A grande maioria dos 60 produtores da camomila de Mandirituba tem perfil igual ao de Dionísio Ivankio e enfrenta os mesmos percalços. Segundo o agrônomo Marcos Antônio Dalla Costa, que há dois anos dá assistência aos produtores, o problema de preços deprimidos se deve primeiramente ao fato de a matéria-prima ir direto para indústrias paulistas ou ser vendida a atravessadores. “Os agricultores não conseguem agregar valor e isso os deixa a mercê do mercado”, avalia. E a origem do problema, prossegue, “está relacionada à falta de organização dos produtores, que não conseguem controlar a oferta e manter os preços em bons níveis”.

Dalla Costa

O agrônomo Dalla Costa, com aparelho usado na colheita manual


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